Tropa de Elite 2
Texto publicado originalmente aqui.
Fui ver ontem o Tropa de Elite 2, depois de ter lido as críticas do Wesley ao filme. Comecei obviamente com uma certa má vontade: tinha visto há alguns dias o final do primeiro filme na TV (nem me lembrava de quão fascista ele era), fiquei bem desconfiada do trailer e tinha na cabeça todos os comentários do Wesley. O fato é que nos primeiros 20 minutos de filme, talvez, as minhas espectativas ruins pareciam se confirmar: um Capitão Nascimento tão fascista quanto antes, ridicularzando o discurso dos direitos humanos, sempre o herói incorruptível e a maldita narração ao fundo conduzindo a interpretação da trama.
Durante ainda um bom tempo achei o filme bem indeciso. Em certos momentos parecia reafirmar todo o discurso do outro, em compensação, alternava com momentos fortes de contestação das práticas da polícia. Muitas cenas poderiam deixar a dúvida entre uma tentativa de retrato da realidade feito para chocar pela violência e uma exaltação dessa mesma violência, dúvida que poderia ser lançada sobre o espectador, este gostando ou não da cena conforme sua posição ideológica. Poderia. Se não fosse a sempre maldita narração que decidia quem era o filho-da-puta e quem era o herói.
As alternâncias de situações escrotas com críticas bem feitas foi, no entanto, mudando seu rumo. Conforme a trama se complexificava, mais o filme se afastava da pura violência de mocinho X bandido, mais a ação dos personagens principais era amarrada por teias alheias às suas vontades e suas atitudes perdiam potência perto da pluralidade de fatores. E, junto com as cenas, mudou aos poucos o tom da narração. O personagem se desenvolveu com o filme. O último momento do Capitão Nascimento como o conhecíamos do primeiro filme é a fase de aparente vitória de seus ideais, quando ele trabalha na secretaria de segurança e tem a oportunidade de concretizar todo o ideal fascista de seu início de carreira: agora não era só a violência, ele tinha todo um aparelho público-estatal a seu favor.
Nesse mesmo percurso de ascendência do Capitão Nascimento como o conhecíamos, ascende o personagem do Fraga/Freixo. Ele começa o filme como um personagem fraco e interesseiro, a ponto de roubar a mulher do outro. (Tenho que admitir que a trama familiar estilo novela das oito foi uma aproximação com o gosto popular que achei bem desnecessária.) É um esquerdistazinho que usa os direitos humanos como trampolim político. O personagem vai ganhando corpo muito devagar e tem sua virada junto com a do outro: quando o policial desaba e vê todo o mundo em que acreditava ruindo na sua frente, o “cara dos direitos humanos” cresce como o chato que tinha razão desde o começo. Ele vira o herói porque é o único que entendia “o sistema” desde o início, foi o cara que bateu o pé e continuou sua briga até o fim. Mais para o final do filme a gente até esquece a filha-da-putagem de ele ter roubado a mulher do outro, ele até parece um padastro bem tranquilo. A relação do Nascimento com o filho deixa de ser mostrada como a influência maléfica de um padastro colocando idéias na cabeça do menino pra ser uma relação muito mais complexa de afastamento entre pai e filho que não se compreendem.
Foi da metade do filme pra frente que comecei a entender que toda a narração (a oral e a mais subterrânea, a do conjunto de elementos que mais suscitam sensações do que expressam idéias formadas) feita do ponto de vista do personagem principal invertia seu papel. Se num filme era ela que dava o tom definitivo da exaltação da violência e do superherói redentor, no outro ele usa todo o seu potencial carismático para dar uma rasteira no espectador. A maior abertura de história do cinema nacional é tributária quase exclusivamente da identificação do público com o policial. A condução de todo o decorrer da vida do sujeito por essa mesma narração obriga o espectador a se confrontar com sua própria cegueira.
Não quero dizer com isso que todo o país vai virar comunista e entender todas as nuances do capital e da sociedade. Se alguém esperava que um filme fizesse isso pode ir logo pulando da janela porque coisas assim não acontecem. E se alguém queria um filme que tratasse com toda a complexidade possível as questões que nós, da esquerda (assumo que ninguém da direita me leia, e, se houver um, aproveito pra mandar se fuder, que é pra não perder o hábito), queremos ver tratadas, esse alguém que vá ver um filme de esquerda que fale pra esquerda e que tem tanta potência pra afetar alguém quanto o meu dedo mindinho contra as milícias.
Os dois grandes méritos do filme pra mim são a porrada que dá nas convicções dos apaixonados pelo Nascimento e o fato de conseguir tratar de forma muito mais elaborada do que eu poderia esperar de um filme brasileiro de duas horas das relações por trás da violência, o discurso que mais arrebata a população média hoje em dia. Ele é bem sucedido mostrando a necessidade de um discurso contra o tráfico, proferido por Wagner Montes da vida, a necessidade da eleição de políticos para manter o esquema no esquema e, acima de tudo, a necessidade de uma polícia eficiente e alheia a sua verdadeira função no tabuleiro. O crescente do herói-polícia foi necessário para sua queda, porque junto com ela foi a crença no poder milagroso do BOPE.
Se metade das pessoas que virem esse filme deixarem de crer numa violência policial high-tech como redentora do mundo, pra mim já tá bom. Fui ver o filme no shopping tijuca já me lamentando pelos comentários que seria obrigada a ouvir saindo das bocas da playboyzada tijucana, como disse o Melo, gritando “faca na caveira”, e saí de lá bem contente com o resultado: uma platéia calada.
Um último comentário sobre o Capitão: não acho que a manutanção dele como um cara correto e obstinado, como o ainda herói da história, carregue com ela a permanencia do paradigma policial. A cena do inquérito é fundamental para entender o personagem: ele conta que o filho perguntou pra ele por que o trabalho dele era matar e ele diz que depois de 20 anos na polícia ainda não sabe responder. A incapacidade do policial de se justificar, se ele tiver conseguido de fato atingir seu público, pode contribuir para arrancar desse público algumas certezas.
P.S. Leiam também o texto do Erick.
